sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O que a menina que eu fui pensaria da mulher que me tornei?


Às vezes, gosto de imaginar como seria encontrar a menina que fui muitos anos atrás.

Aquela menina que ainda tinha uma vida inteira pela frente, tantos caminhos para percorrer e tantas histórias que nem imaginava que um dia viveria.

Se eu pudesse me sentar ao lado dela, olhar em seus olhos e contar tudo o que aconteceu, será que ela ficaria surpresa com a mulher que me tornei?

Talvez quisesse saber se fui feliz, se realizei meus sonhos, se encontrei pessoas especiais pelo caminho e se consegui superar as dificuldades que a vida trouxe.

Eu lhe contaria que a vida nem sempre foi fácil, mas que cada etapa me ensinou alguma coisa. Que amei, cuidei da minha família, vivi alegrias, enfrentei despedidas e aprendi que algumas coisas só compreendemos verdadeiramente quando o tempo passa.

Contaria também que me tornei mãe, que tive a alegria de acompanhar o crescimento dos meus filhos e que a vida me presenteou com netos maravilhosos. Que existem momentos simples que se transformam em lembranças preciosas e que receber a família em casa continua sendo uma das minhas grandes alegrias.

Diria a ela que, mesmo depois de tantos anos, continuo tendo curiosidade de aprender, vontade de passear, prazer em cuidar da minha casa, fazer meus trabalhos manuais e encontrar minhas amigas.

Aos 86 anos, continuo descobrindo coisas novas. E isso talvez seja uma das surpresas mais bonitas que eu poderia contar àquela menina.

Mas também lhe falaria sobre as saudades, sobre as pessoas queridas que deixaram marcas em minha história e sobre como aprendi a valorizar cada encontro, cada abraço e cada demonstração de carinho.

Talvez ela me perguntasse se consegui realizar todos os meus sonhos.

Eu precisaria ser sincera: nem todos. Alguns ficaram pelo caminho, outros mudaram com o tempo e alguns continuam vivos dentro de mim.

Ainda tenho lugares que gostaria de conhecer e experiências que desejo viver. Entre esses sonhos, está conhecer a terra portuguesa onde meus pais nasceram e viveram antes de virem para o Brasil. Seria uma maneira de me aproximar um pouco mais das minhas raízes e da história que começou antes mesmo de eu nascer.

E então eu diria àquela menina que envelhecer não significa deixar de sonhar.

Significa, muitas vezes, aprender a sonhar de outras maneiras.

Hoje compreendo que não precisamos ter uma vida perfeita para reconhecer a beleza da nossa caminhada. Somos feitas de escolhas, encontros, despedidas, recomeços e aprendizados. E cada fase deixa alguma coisa dentro de nós.

Se pudesse dar um conselho à menina que fui, diria para ela não ter tanta pressa, aproveitar mais os momentos simples, demonstrar seu amor às pessoas queridas e não deixar para amanhã todas as palavras bonitas que podem ser ditas hoje.

Também lhe diria para ter coragem diante das mudanças, porque a vida sempre nos surpreende.

E, antes de me despedir, gostaria de abraçá-la e agradecer por tudo o que ela começou a construir, mesmo sem saber onde aquela estrada iria terminar.

Afinal, aquela menina sou eu.

E a mulher que me tornei carrega um pouco de tudo o que vivi, de todas as pessoas que amei e de tudo o que aprendi ao longo do caminho.

Hoje, olhando para trás, não vejo apenas o tempo que passou. Vejo uma história inteira.

E olho para a frente sabendo que ainda existem páginas a escrever.

Porque nunca deixamos de ser, em alguma parte do coração, a menina que um dia fomos. E talvez o maior presente que possamos oferecer a ela seja olhar para nossa própria história com carinho, gratidão e a coragem de continuar vivendo.

Jandira


Imagem: Magnific

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Quem cuida de quem sempre cuidou de todos?



Durante grande parte da vida, muitas mulheres têm uma missão silenciosa: cuidar.

Cuidamos dos filhos quando são pequenos, acompanhamos seu crescimento, nos preocupamos com seus problemas e torcemos por suas conquistas. Cuidamos da casa, ajudamos a família, acolhemos as amigas e, muitas vezes, colocamos nossas próprias necessidades em segundo plano.

Quantas vezes deixamos de descansar porque alguém precisava de nós? Quantas vezes escondemos uma preocupação para não preocupar nossos filhos? Quantas vezes dissemos “está tudo bem”, mesmo quando também gostaríamos que alguém perguntasse como estávamos de verdade?

Fazemos tudo isso porque amamos. Mas existe uma pergunta que merece ser feita: quem cuida de quem sempre cuidou de todos?

Com o passar dos anos, nossas necessidades também mudam. Podemos precisar de ajuda em algumas tarefas, de companhia em determinados momentos ou simplesmente de alguém disposto a nos ouvir sem pressa.

E não há vergonha alguma nisso.

Durante muito tempo, fomos nós que oferecemos o colo, o conselho e a palavra de conforto. Talvez agora precisemos aprender que também podemos receber tudo isso.

Às vezes, uma ligação faz diferença. Uma visita inesperada alegra o dia. Um convite para almoçar, um abraço demorado ou uma pergunta sincera: “Você está bem? Precisa de alguma coisa?”, podem nos fazer sentir acolhidas e lembradas.

É verdade que nossos filhos e netos têm suas próprias responsabilidades, seus compromissos e suas preocupações. Nem sempre conseguem estar presentes como gostaríamos. E a ausência em um determinado dia não significa, necessariamente, falta de amor.

Mas o carinho precisa encontrar maneiras de se manifestar. E todos nós, em qualquer idade, precisamos de vínculos, atenção e afeto.

Também precisamos aprender a falar sobre nossas necessidades. Não é preciso esperar que as pessoas adivinhem o que sentimos. Podemos dizer que estamos com saudade, pedir companhia para um passeio ou convidar alguém para tomar um café.

Ser forte não significa precisar de ninguém. E aceitar ajuda não diminui o nosso valor.

Aos 86 anos, penso que existe uma beleza especial em reconhecer que a vida é feita de trocas. Hoje podemos cuidar de alguém; amanhã, podemos precisar desse cuidado. E, muitas vezes, as duas coisas acontecem ao mesmo tempo.

Por isso, quero deixar uma mensagem às minhas amigas: não se esqueçam de vocês mesmas.

Continuem cuidando de quem amam, mas reservem um espaço para seus próprios desejos, suas amizades, seus passeios e suas pequenas alegrias. Permitam-se descansar. Peçam ajuda quando precisarem. Aceitem um abraço sem sentir que precisam retribuí-lo imediatamente com algum favor.

E, se vocês conhecem uma mulher que passou a vida inteira cuidando de todos, procurem saber como ela está. Talvez ela não peça nada, mas fique muito feliz ao perceber que alguém também pensou nela.

No fundo, cuidar não deveria ser uma tarefa de uma pessoa só. O carinho fica mais bonito quando circula, quando é oferecido e também recebido.

Porque quem passou a vida inteira sendo abrigo para os outros também merece encontrar um lugar onde possa descansar o coração.

E nunca devemos nos esquecer: em qualquer idade, continuamos merecendo atenção, ternura, companhia e amor.


Jandira

Imagem: Magnific

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Quando percebemos que somos importantes para alguém



Há momentos na vida em que uma coisa muito simples consegue aquecer o nosso coração.

Um telefonema inesperado, uma mensagem perguntando se estamos bem, uma amiga que diz: “Estava pensando em você”, um filho que liga para saber como passamos a noite, um neto que aparece para nos visitar.

São gestos pequenos, mas que podem dizer muito.

Eles nos fazem perceber que, em algum lugar, alguém lembrou de nós. E existe uma sensação muito bonita em saber que fazemos parte da vida de outras pessoas.

Com o passar dos anos, aprendemos a valorizar ainda mais essas demonstrações de carinho. Talvez porque entendamos que o tempo passa e que não devemos deixar para depois as palavras e os gestos que podem fazer bem a alguém.

Às vezes, não precisamos de grandes declarações. Um simples “como você está?” pode significar muito.

Também acontece de recebermos uma ligação de uma amiga que não víamos há algum tempo e pensarmos: “Que bom que ela se lembrou de mim!”

Esses momentos nos lembram de algo importante: nossa presença tem valor.

Construímos relações ao longo de toda a vida. Somos mães, avós, irmãs, amigas, vizinhas e companheiras de tantas histórias. E deixamos um pouco de nós em cada pessoa que passa pela nossa vida.

Mas existe outro lado dessa reflexão.

Se é tão bom perceber que somos importantes para alguém, também podemos fazer alguém sentir o mesmo.

Que tal telefonar hoje para uma amiga?

Que tal perguntar a alguém que mora sozinho como está?

Que tal mandar uma mensagem para aquele filho ou neto que está ocupado e dizer simplesmente: “Estou pensando em você”?

Talvez essa pessoa esteja precisando justamente de uma demonstração de carinho.

Aos 86 anos, tenho cada vez mais certeza de que os vínculos precisam ser cuidados. Não devemos apenas esperar carinho: também podemos oferecê-lo.

E talvez essa seja uma das maiores riquezas que acumulamos com o passar dos anos: pessoas que amamos e que também guardam um lugar para nós em seus corações.

No fim, não são as coisas que ficam.

São os encontros, as conversas, os abraços, as lembranças e a certeza de que, em algum momento da vida de alguém, nós fizemos diferença.

E quando percebemos isso, o coração agradece. 

Jandira


Imagem: Magnific

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Quando a casa se enche de amor




Hoje minha casa vai ficar mais alegre.

Meus netos vêm almoçar, e só de saber que eles estarão aqui já sinto uma felicidade diferente. A casa parece ganhar vida quando recebo alguém da minha família.

Não é preciso preparar uma grande festa. Às vezes, basta colocar a mesa, preparar uma comida gostosa e esperar por aqueles que amamos.

Gosto desses momentos em que a casa fica cheia de conversa, risadas e histórias. Gosto de ouvir meus netos contando suas novidades, de saber o que estão fazendo, o que aprenderam, os planos que têm.

Para mim, receber a família em casa é uma das pequenas grandes alegrias da vida.

Com o passar dos anos, aprendemos a dar mais valor a esses momentos. Talvez porque entendamos que o tempo passa depressa e que cada encontro se transforma em uma lembrança que guardaremos no coração.

Minha casa pode ter seus móveis, suas plantas, seus objetos e tudo aquilo que gosto de cuidar. Mas percebo que ela fica realmente bonita quando tem gente dentro dela.

Uma casa não é feita apenas de paredes e objetos. Ela também é feita das pessoas que entram pela porta e deixam um pouco de amor por onde passam.

E há algo muito especial em poder receber os filhos, os netos, os irmãos, os sobrinhos ou aqueles amigos que já fazem parte da nossa família do coração.

Aos 86 anos, sinto uma gratidão enorme por ainda poder viver esses momentos. Cada almoço, cada café, cada conversa e cada abraço se tornam presentes que a vida me oferece.

Hoje, quando meus netos chegarem, talvez a mesa fique um pouco mais cheia, a conversa um pouco mais barulhenta e a casa um pouco mais movimentada.

E eu vou gostar de tudo isso.

Porque quando as pessoas que amamos chegam, a casa se enche de amor.

E quando elas vão embora, ficam as lembranças, e aquela vontade gostosa de esperar pelo próximo encontro. 

Jandira


Imagem: Magnific

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

A alegria de se arrumar para si mesma



Quem disse que precisamos esperar uma ocasião especial para nos sentirmos bonitas?

Durante muitos anos, talvez tenhamos nos arrumado pensando em um compromisso, uma festa, uma visita ou em agradar alguém. Mas chega um momento em que descobrimos uma coisa muito gostosa: também podemos nos arrumar simplesmente porque queremos nos sentir bem.

Colocar uma roupa que gostamos, arrumar os cabelos, passar um batom, escolher um perfume ou colocar um brinco bonito pode parecer algo pequeno, mas pode mudar o nosso humor.

E não estou falando de tentar parecer mais jovem.

Estou falando de olhar para nós mesmas com carinho, respeitando a idade que temos e valorizando a mulher que nos tornamos.

Eu gosto de cuidar da minha casa, escolher as coisas que deixam meus ambientes bonitos e também gosto de me cuidar. São pequenas atitudes que me fazem sentir bem e mostram que ainda tenho prazer em celebrar a vida.

Não precisamos esperar uma festa para usar aquela roupa bonita que está guardada no armário.

Não precisamos esperar uma visita para colocar perfume.

E não precisamos esperar que alguém nos diga que estamos bonitas.

Podemos fazer tudo isso por nós mesmas.

Aos 86 anos, aprendi que vaidade também pode ser uma forma de alegria. É acordar, olhar no espelho e pensar: “Hoje quero ficar bonita para mim.”

Talvez nossas pernas já não sejam as mesmas, nossos cabelos tenham mudado e nosso rosto carregue as marcas de muitos anos. Mas cada uma dessas marcas conta uma história.

Envelhecer não apaga nossa feminilidade, nossa elegância ou nossa vontade de nos sentirmos bonitas.

Por isso, minhas amigas, que tal hoje escolhermos uma roupa de que gostamos, passarmos um pouco de perfume e nos arrumarmos sem precisar de nenhuma ocasião especial?

A ocasião somos nós.

Porque cuidar de si mesma não é vaidade demais. É reconhecer que a nossa própria companhia também merece carinho.


Jandira


Imagem: Magnific

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

O que você ainda gostaria de fazer?



Há uma pergunta que, de vez em quando, deveríamos fazer a nós mesmas:

O que eu ainda gostaria de fazer?

Quando somos jovens, estamos sempre fazendo planos. Pensamos no trabalho, na família, nas viagens, nos projetos e em tudo aquilo que ainda queremos conquistar.

Mas, com o passar dos anos, será que deixamos de fazer planos?

Eu acredito que não.

A idade pode mudar algumas coisas em nossa vida, mas não precisa levar embora nossa curiosidade, nossos desejos e nossa vontade de viver.

Aos 86 anos, ainda encontro muitas coisas que gostaria de fazer. Quero continuar aprendendo, passeando, cuidando da minha casa, fazendo meus trabalhos manuais, encontrando minhas amigas e aproveitando cada oportunidade de estar com minha família.

E existe um sonho que guardo com um carinho muito especial: quero conhecer o lugar em Portugal onde meus pais nasceram e viveram durante muitos anos, antes de virem para o Brasil.

Tenho vontade de caminhar por aquelas ruas, conhecer aquela terra e imaginar como era a vida deles antes de atravessarem o oceano para construir uma nova história aqui.

Talvez eu não encontre exatamente aquilo que imagino. Afinal, o tempo transforma os lugares. Mas acredito que seria emocionante estar ali e pensar: “Foi daqui que meus pais partiram. Foi aqui que começou uma parte da minha história.”

Esse desejo me faz pensar que nossos sonhos nem sempre são apenas sobre o futuro. Alguns também nos levam ao passado, às nossas raízes e às pessoas que fizeram parte da nossa história.

E talvez essa seja uma das coisas bonitas de envelhecer: começamos a compreender que a nossa vida é feita de muitos capítulos. Alguns já foram escritos, mas ainda existem páginas em branco.

Talvez um grande sonho seja fazer uma viagem. Para outra pessoa, pode ser aprender algo novo, reencontrar uma amiga, conhecer um lugar ou começar uma atividade.

Às vezes, o que desejamos é ainda mais simples: tomar um café olhando o jardim, assistir ao pôr do sol, fazer aquele passeio que estamos adiando ou ter uma boa conversa com alguém querido.

O importante é não acreditar que, porque chegamos a uma determinada idade, já não podemos desejar coisas novas.

Quem disse que a vida precisa parar de trazer novidades depois dos 80?

Talvez ainda existam lugares para conhecer, pessoas para encontrar, histórias para viver e lembranças para construir.

Porque sonhar não tem idade.

E talvez uma das maiores alegrias de envelhecer seja perceber que ainda temos tempo para viver coisas que nunca imaginamos.

A vida não termina quando completamos 60, 70, 80 ou 86 anos.

Enquanto houver vontade no coração, sempre haverá espaço para um novo começo.


Jandira


Imagem: Magnific

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Não espere ser lembrada. Faça-se presente



Com o passar dos anos, podemos cair na armadilha de esperar que os outros nos procurem. Esperamos um telefonema, uma visita, um convite para um café ou uma mensagem perguntando como estamos.

Mas será que precisamos sempre esperar?

Talvez uma das coisas mais bonitas que podemos aprender com a idade seja tomar a iniciativa. Se sentimos saudade de uma amiga, por que não telefonar? Se queremos conversar, por que não convidá-la para um café? Se temos vontade de passear, por que não combinar um passeio?

Fazer-se presente não significa insistir onde não somos bem recebidas. Significa cuidar das relações que têm carinho, reciprocidade e significado para nós.

Às vezes, uma simples mensagem - “Pensei em você hoje” - pode transformar o dia de alguém.

Tenho percebido que a vida fica muito mais bonita quando deixamos de esperar que as pessoas adivinhem o que sentimos. Se gostamos, demonstramos. Se sentimos saudade, procuramos. Se queremos estar perto, nos aproximamos.

Aos 86 anos, acredito cada vez mais que não devemos colocar nossa felicidade somente nas mãos dos outros. Também podemos participar ativamente da construção dos nossos momentos felizes.

Uma ligação pode virar uma conversa de uma hora. Um convite pode virar um almoço. Um passeio pode se transformar em uma lembrança querida. E uma amizade cuidada com carinho pode nos acompanhar por muitos anos.

Por isso, hoje quero deixar uma pergunta para minhas amigas:

De quem você está sentindo saudade?

Talvez hoje seja um bom dia para pegar o telefone e fazer aquela ligação.

Não espere apenas ser lembrada.

Faça-se presente na vida de quem você ama. Porque carinho também precisa de iniciativa, e nunca é tarde para dar o primeiro passo. ❤️

Jandira


Imagem: Magnific