Às vezes, gosto de imaginar como seria encontrar a menina que fui muitos anos atrás.
Aquela menina que ainda tinha uma vida inteira pela frente, tantos caminhos para percorrer e tantas histórias que nem imaginava que um dia viveria.
Se eu pudesse me sentar ao lado dela, olhar em seus olhos e contar tudo o que aconteceu, será que ela ficaria surpresa com a mulher que me tornei?
Talvez quisesse saber se fui feliz, se realizei meus sonhos, se encontrei pessoas especiais pelo caminho e se consegui superar as dificuldades que a vida trouxe.
Eu lhe contaria que a vida nem sempre foi fácil, mas que cada etapa me ensinou alguma coisa. Que amei, cuidei da minha família, vivi alegrias, enfrentei despedidas e aprendi que algumas coisas só compreendemos verdadeiramente quando o tempo passa.
Contaria também que me tornei mãe, que tive a alegria de acompanhar o crescimento dos meus filhos e que a vida me presenteou com netos maravilhosos. Que existem momentos simples que se transformam em lembranças preciosas e que receber a família em casa continua sendo uma das minhas grandes alegrias.
Diria a ela que, mesmo depois de tantos anos, continuo tendo curiosidade de aprender, vontade de passear, prazer em cuidar da minha casa, fazer meus trabalhos manuais e encontrar minhas amigas.
Aos 86 anos, continuo descobrindo coisas novas. E isso talvez seja uma das surpresas mais bonitas que eu poderia contar àquela menina.
Mas também lhe falaria sobre as saudades, sobre as pessoas queridas que deixaram marcas em minha história e sobre como aprendi a valorizar cada encontro, cada abraço e cada demonstração de carinho.
Talvez ela me perguntasse se consegui realizar todos os meus sonhos.
Eu precisaria ser sincera: nem todos. Alguns ficaram pelo caminho, outros mudaram com o tempo e alguns continuam vivos dentro de mim.
Ainda tenho lugares que gostaria de conhecer e experiências que desejo viver. Entre esses sonhos, está conhecer a terra portuguesa onde meus pais nasceram e viveram antes de virem para o Brasil. Seria uma maneira de me aproximar um pouco mais das minhas raízes e da história que começou antes mesmo de eu nascer.
E então eu diria àquela menina que envelhecer não significa deixar de sonhar.
Significa, muitas vezes, aprender a sonhar de outras maneiras.
Hoje compreendo que não precisamos ter uma vida perfeita para reconhecer a beleza da nossa caminhada. Somos feitas de escolhas, encontros, despedidas, recomeços e aprendizados. E cada fase deixa alguma coisa dentro de nós.
Se pudesse dar um conselho à menina que fui, diria para ela não ter tanta pressa, aproveitar mais os momentos simples, demonstrar seu amor às pessoas queridas e não deixar para amanhã todas as palavras bonitas que podem ser ditas hoje.
Também lhe diria para ter coragem diante das mudanças, porque a vida sempre nos surpreende.
E, antes de me despedir, gostaria de abraçá-la e agradecer por tudo o que ela começou a construir, mesmo sem saber onde aquela estrada iria terminar.
Afinal, aquela menina sou eu.
E a mulher que me tornei carrega um pouco de tudo o que vivi, de todas as pessoas que amei e de tudo o que aprendi ao longo do caminho.
Hoje, olhando para trás, não vejo apenas o tempo que passou. Vejo uma história inteira.
E olho para a frente sabendo que ainda existem páginas a escrever.
Porque nunca deixamos de ser, em alguma parte do coração, a menina que um dia fomos. E talvez o maior presente que possamos oferecer a ela seja olhar para nossa própria história com carinho, gratidão e a coragem de continuar vivendo.
Jandira
Imagem: Magnific






